Monday, 17 October 2016

"Não à comercialização do Inca!" & visita à Killarumiyuq

Imagem 1: caminho à Killarumiyuq
Imagem 2: peregrinação em trio ;)
Um mês e meio se passou desde que nos confundimos nas datas e fomos parar no Templo da Lua de Killarumiyuq, "a que possui uma pedra da lua" (na língua Quechua), dois dias depois da celebração da Festa da Lua, que foi propositalmente adiantada para cair num domingo e atrair mais turistas e movimentar mais dinheiro na cidade de Ancahuasi, Cusco.
Casualmente caímos lá nas ruínas numa terça-feira, segundo e último dia da faena (mutirão de limpeza) pós-festa e pudemos ver as pegadas humanas na forma de sacos plásticos, pedaços de papel higiênico e centenas de tampas de garrafas de cerveja espalhadas por uma das construções mais sagradas para a cultura inca, num lugar especial que era venerado também por várias culturas pré-incaicas que haviam passado por ali muito antes do tempo que é tão pormenorizadamente estudado na escola como "descobrimento da América". E, justamente por ser dia de limpeza geral, não havia fiscais na entrada; todos os empregados pela Dirección Desconcentrada de Cultura - Cusco estavam escalados para a limpeza. Entramos tranquilos, cruzamos por um par de pessoas, até que, lá pelas tantas, um senhor veio nos dizer que tínhamos que pagar a entrada. Papo vai, papo vem e, depois de receber um par de Folhas de Coca de nossa parte (se abriu um sorriso em seu rosto enquanto ele as pijchava, "mascava"), o "Empregado do Estado" voltou a ser homem e foi nos explicando com calma e sabedoria alguns mistérios ocultos daquelas ruínas, que eram local de oferendar, observar e agradecer à Lua, ao Arco-íris e à Água.
Imagem 3: entrada do Templo da Lua.
Ele voltou ao seus afazeres e  nós seguimos nosso rumo em direção ao Templo da Lua, que ficava alguns quatrocentos-e-tantos metros montanha acima, num caminho bem atualmente demarcado por pequenas pedras pintadas de branco, que iam formando um caminho serpenteante por entre pedras com diferentes marcas (inclusive uma, de mais de 2,5m que parecia representar um antigo guardião do lugar). Havíamos deixado nossos sapatos lá embaixo, depois de ter conversado com o primeiro senhor, e, apesar de alguns espinhos das plantas cercanas, o caminho parecia feito para os pés descalços.
Imagem 4: interior do Templo, detalhe na pedra à esq,
talhada e apoiada numa base tão pequenina...
Uma águia, que vinha nos acompanhando, às vezes se aventurava a chegar mais perto em seus vôos baixos. Nos olhava com olhos afiados, como que nos passando por um Raio-X que mostrasse nossas verdadeiras intenções ali. Não levaríamos nada além da boa energia, tampouco deixaríamos algo além de nossas energias e alguns punhados de Folhas de Coca oferendadas de coração aos guardiães daquele lugar. Não estávamos ali nem pra ganhar dinheiro com os espíritos e construções antigas, nem para depredá-las. Nos concederam passagem. Depois de deixar nosso presente nos três altares (buracos cavados nas imensas pedras) do templo, ficamos sentados na entrada, meditando, recebendo as energias do sol, do lugar, das plantas, animais e rochas ao redor por mais de duas horas. Por fim, quem diria, nossos calçados, láaa embaixo, nos denunciariam.
Um outro senhor, cujo salário também era pago pelo Estado, subiu todo o caminho, baixo um sol de quase meio-dia, para cobrar-nos entradas. E, com ele, não houve conversa (nem Folhas de Coca) que o amaciassem. Estávamos em três e não tínhamos levado dinheiro para pagar três entradas, que sairiam um total de 21 soles (21 reais, no câmbio do dia). Na verdade tínhamos, mas se pagássemos, teríamos que voltar mais de 200km andando e em jejum. Paguem duas para os três, então, ele nos disse. De um jeito ou de outro ele queria receber algo por ter subido todo aquele caminho baixo sol para cobrar três "hippies" que haviam aparecido no meio da faena. Não abrimos mão do dinheiro - e ele não abriu mão do seu ponto de vista. Se não vão pagar, retirem-se. Simples assim. Gracias hermano, lhe dissemos. E ele, inflexível: Retirem-se. Baixamos, vagarosamente, aproveitando o caminho, enquanto ele vinha a passos largos atrás, como se quisesse nossa pele pela sua subida infrutífera. Perto da entrada, ele se foi para um lado e nós aproveitamos para tirar um par de fotos mais antes de sairmos.
Imagem 5: pedra trabalhada na qual, uma vez ao ano, por 3 minutos, o sol,
por sua inclinação, faz com que um arco-iris seja refletido.
Digam o que quiserem os amantes do capitalismo e do "se ninguém pagar não tem como manter", mas os Incas e as civilizações que os antecederam praticavam as faenas como um trabalho coletivo: todos os que eram beneficiados por uma determinada estrutura eram responsáveis por ela e se sentiam no dever de mantê-la de pé, limpa, etc. E os lugares sagrados são, pois, sagrados... imagine se cada vez que quisesse entrar em uma igreja um católico tivesse que pagar sete reais! Parece absurdo, mas se levar em consideração que, para construir a igreja, foi necessária mão de obra, materiais de construção, etc, e que, para manter um padre, é necessário um salário, para limpar a igreja é preciso outro empregado e por aí vai, esse dinheiro poderia estar justificado, mas ninguém questiona o absurdo que é que alguém precise pagar para passar por um posto de fiscalização para poder caminhar pelas montanhas passando por uma porção de pedras trabalhadas há mais de 500 anos. Ok, vimos aí o trabalho do pessoal limpando - e que não seria necessário se as pessoas fossem melhor educadas no sentido de a) não jogar lixo no chão; b) não consumir as bobagens que as fazem produzir esse lixo; c) conhecer para respeitar sua cultura e tradição (e assim valorizar os espaços sagrados deixados por seus antepassados) -, e sabemos que atualmente tudo é movido à dinheiro, mas será que uma porcentagem do dinheiro movimentado durante essa Festa da Lua - e outros festivais que ocorrem nas ruínas de todo o Peru - não poderia ser destinado para pagar esse gasto? É realmente necessário que hajam fiscais e cobrança, incluso para gente das redondezas, que vai ter que pagar, mesmo que sejam valores reduzidos, para caminhar por certas partes de sua comunidade, que foram tombadas como patrimônio histórico? De bom grado trocaria um dia de serviço para estar dentro de uma ruína tocando aquelas pedras, andando com os pés descalços pelas montanhas onde passaram tantas mentes brilhantes em tempos idos... Mas não é essa a lógica vigente. A moda é: se não vai pagar, deve se retirar. 
Imagem 6: da entrada do Templo, olhando para a imensidão além
Imagem 7: "aqui en la casa de mis abuelos"*
Por essas e outras é que seguimos escolhendo horários/dias "alternativos" para estar nas ruínas. Talvez eu nunca chegue a conhecer Machu Picchu, cuja ticket de entrada custa mais do que 100 soles e o trem - suíço -, custa US$32 para ir, e outros US$ 32 para voltar e está guardada dia e noite por policiais bem armados... Para ir às outras ruínas, saímos junto com o Sol e subimos a montanha antes das 7 da manhã, quando ainda não há fiscalização, pedindo permiso a los ancestros y guardianes, deixando umas hojitas de coca, nos harmonizando com a energia do lugar, conhecemos o que há para conhecer, tiramos algumas fotos - se é que estamos com a câmera - e voltamos. Acontece de encontrarmos a fiscalização na saída, mas aí eles já não tem muito mais o que fazer.
"Não à comercialização do Inca!", e das
outras culturas de nossa Abya Yala* também, obviamente. Precisamos conhecer para valorizar e valorizar para amar e proteger. E esse relacionamento não se faz envolvendo dinheiro.

Imagem 8: O Guardião.
Abya Yala ("terra viva" ou "terra em florescimento" na língua do povo Kuna), verdadeiro nome deste continente que, longe de ser descoberto, foi encoberto por povos invasores que não souberam compreender que estas terras já tinham quem as amasse e cuidasse nem que a gente daqui estava menos interessada em acumular bens e mais em se desenvolver intelectual e espiritualmente. Que possamos ser as gerações de transição, que unem o melhor do antigo e do novo e agem em prol do bem de todos os seres.

Gracias por lerem até aqui! Bom caminho, hermanos!

"Aqui en la casa de mis abuelos" é parte da letra de uma música de Alonso del Rio.

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